Entre o apito e o preconceito: a mulher na arbitragem sob julgamento desigual

Daiane Muniz apitando pelo Campeonato Paulista (Getty Images)

O futebol, historicamente, foi estruturado como um espaço de predominância masculina, no qual a presença feminina ainda é constantemente questionada. A declaração de um jogador do Red Bull Bragantino, Gustavo Marques, ao menosprezar a árbitra da partida Daiana Muniz contra o São Paulo FC, pelo Campeonato Paulista, escancara como o machismo permanece enraizado no ambiente esportivo. Mais do que uma crítica pontual à arbitragem, o comentário carrega um viés de gênero que deslegitima a profissional não por seus erros, que fazem parte do futebol, mas por ser mulher:

Quero falar da arbitragem porque não adianta a gente jogar contra São Paulo, Palmeiras, Corinthians e eles colocarem uma mulher para apitar um jogo desse tamanho. Era o sonho da gente chegar à semifinal ou até a final, mas ela acabu com o nosso jogo. A Federação Paulista tem que olhar para os jogos desse tamanho e não colocar uma mulher.

Zagueiro Gustavo Marques após derrota pra o São Paulo no último sábado (21/02)

É fundamental destacar que a discussão não se trata de colocar mulheres acima de críticas. Árbitras, assim como árbitros, estão sujeitas a avaliações técnicas e ao escrutínio público. O problema surge quando a análise deixa de ser baseada no desempenho e passa a ser guiada por estereótipos. No caso em questão, dados e avaliações de desempenho mostram que a árbitra possui índice de acerto e número de erros igual ou até inferior ao de muitos árbitros homens que atuam na mesma competição. Ainda assim, a repercussão de suas decisões é frequentemente mais intensa e carregada de ataques pessoais, o que evidencia um padrão de julgamento desigual.

Esse cenário revela um mecanismo comum do machismo estrutural: mulheres precisam provar continuamente sua competência em um nível muito mais elevado do que os homens para obter o mesmo reconhecimento. Enquanto erros masculinos são tratados como “parte do jogo”, falhas femininas são generalizadas como prova de incapacidade. Essa lógica não apenas desvaloriza a profissional, mas também desencoraja a presença feminina em funções de autoridade dentro do futebol, como a arbitragem.

Além disso, é preciso considerar o impacto simbólico dessas atitudes. Quando uma árbitra é publicamente desrespeitada por um atleta, reforça-se a ideia de que mulheres não pertencem àquele espaço. Isso afeta diretamente meninas e jovens que desejam seguir carreira no esporte, criando barreiras psicológicas e sociais. A luta por igualdade no futebol passa, necessariamente, pelo respeito às profissionais que já ocupam esses espaços e pela garantia de que serão avaliadas pelos mesmos critérios aplicados aos homens.

Diante disso, cabe às entidades esportivas, clubes e atletas adotarem uma postura mais responsável. Críticas técnicas são legítimas e fazem parte do jogo, mas ataques baseados em gênero devem ser combatidos com firmeza, por meio de punições e ações educativas. O respeito à arbitragem, independentemente de quem a exerça, é um princípio básico do fair play.

Como resposta a esse cenário e também como símbolo de avanço e representatividade, a equipe de arbitragem escalada para o clássico entre São Paulo FC e Palmeiras, válido pela semifinal do Campeonato Paulista de 2026, será composta integralmente por mulheres. Daiane Muniz novamente como arbitra principal, Neusa Ines Back e Fabrini Bevilaqua Costa serão as assistentes, Marianna Nanni Batalha, a quarta árbitra, e Izabele de Oliveira, a quinta.

A decisão vai além de uma escalação pontual: representa um posicionamento institucional em defesa da igualdade de oportunidades e do respeito às profissionais da arbitragem. Em um ambiente historicamente marcado pela exclusão, ver mulheres ocupando todos os postos de autoridade em um dos maiores clássicos do futebol paulista é um passo importante para mostrar que competência não tem gênero e que o futebol deve ser, de fato, um espaço para todos.


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