
Neste domingo, o Brasil volta sua atenção para a cerimônia do Oscar. Entre os destaques da premiação está O Agente Secreto, dirigido pelo cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho. A produção brasileira chega à premiação com quatro indicações importantes: Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator para Wagner Moura e Melhor Elenco.
Assisti ao longa em janeiro, ao lado do meu pai, no tradicional Cine Belas Artes, em São Paulo. A experiência deixou uma impressão clara: trata-se de um filme potente, que mistura suspense político, memória histórica e crítica social para revisitar um dos períodos mais delicados da história recente do país. Mais do que uma narrativa de época, a obra funciona como um símbolo de memória coletiva, lembrando a importância de não esquecermos os tempos difíceis e de preservar a história daqueles que foram perseguidos e oprimidos durante o período.
Um thriller político ambientado nos anos 1970
A trama acompanha Marcelo — codinome de Armando — um ex-professor viúvo que chega a Recife durante o período do Carnaval. Seu filho, Fernando, vive com os avós maternos após a morte de sua esposa, Fátima. Em busca de refúgio e anonimato, Armando passa a viver em um albergue administrado por Dona Sebastiana, uma antiga militante política que acolhe dissidentes e refugiados.
Paralelamente, o filme apresenta uma investigação conduzida por policiais corruptos após a descoberta de uma perna humana dentro de um tubarão capturado na costa pernambucana. O episódio, aparentemente absurdo, funciona como um elemento simbólico dentro da narrativa e reforça o tom irônico e crítico do roteiro.
À medida que a história avança, descobrimos que Marcelo/Armando está sendo perseguido por assassinos de aluguel ligados a figuras influentes do regime militar. A perseguição se transforma no eixo central da trama, revelando as engrenagens de repressão, manipulação política e silenciamento que marcaram o período da ditadura.
Uma narrativa densa que exige atenção do espectador
Com uma duração extensa e diversas camadas narrativas, O Agente Secreto pode exigir um pouco de paciência do público em seu início. A história apresenta muitos personagens e situações simultâneas, o que pode gerar certa dificuldade de compreensão nos primeiros momentos.
No entanto, quando o protagonista encontra a personagem Elza e passa a revelar sua trajetória, a narrativa ganha maior clareza e força dramática. A partir daí, o filme constrói uma tensão crescente que prende a atenção até o final.
Atuações marcantes e personagens memoráveis
Um dos grandes méritos do longa está em seu elenco. Wagner Moura conduz o protagonista com intensidade e sobriedade, transmitindo a constante sensação de perigo que cerca o personagem.
Outro destaque é a atuação de Tânia Maria como Dona Sebastiana. A personagem mistura acolhimento, sabedoria e resistência política, tornando-se uma presença carismática na narrativa. É o tipo de personagem que desperta imediatamente empatia no público. Aquele tipo de senhora, que temos vontade de sentar, tomar um café e ouvir suas histórias.
Já Kaiony Venâncio, que interpreta o matador de aluguel Vilmar, cria uma figura ameaçadora mesmo nos momentos de silêncio. Sua presença em cena transmite tensão constante.
Uma das sequências mais impactantes ocorre quando Vilmar encontra Marcelo/Armando no Instituto de Identificação e o chama pelo nome. Mesmo assim, o protagonista permanece imóvel, sem olhar para trás. O momento cria um clima de suspense intenso, mostrando como um gesto mínimo poderia revelar sua identidade.
Reconstrução de época e crítica social
Outro ponto forte do filme está na reconstrução histórica. As paisagens de Recife, combinadas com figurinos, cenários e veículos da época, ajudam a transportar o espectador diretamente para os anos 1970.
Além da repressão política, o roteiro também aborda a corrupção institucional, um tema que continua extremamente atual no Brasil. Em diversos momentos, vemos autoridades manipulando informações, distorcendo fatos e criando narrativas falsas para encobrir crimes.
Esse mecanismo aparece de forma contundente no desfecho do filme, quando a morte de Armando é retratada nos jornais como a de um criminoso comum, apagando deliberadamente a verdade sobre sua história.
Uma ressalva pessoal
Apesar da qualidade narrativa e técnica do filme, um aspecto que pode causar estranhamento é a presença de algumas cenas de sexo explícito. Para parte do público, essas sequências podem soar desnecessárias ou desconfortáveis.
Há interpretações que sugerem que essas cenas funcionam como uma metáfora para o período da ditadura: algo que acontecia diante de todos, mas que poucos enfrentavam diretamente. Ainda assim, essa escolha estética pode dividir opiniões.
Um marco recente do cinema brasileiro
Independentemente dessa ressalva, O Agente Secreto se consolida como uma das produções brasileiras mais relevantes dos últimos anos. Até março de 2026, o longa já havia conquistado mais de 70 prêmios nacionais e internacionais.
O reconhecimento também reforça o bom momento do cinema brasileiro, que recentemente ganhou projeção internacional com obras como Ainda Estou Aqui.
Entretanto, ainda existe um desafio importante dentro do próprio país: a distribuição. Em muitas cidades brasileiras, filmes nacionais permanecem pouco tempo em cartaz ou sequer chegam às salas de cinema. Exemplo disto é o cinema da minha cidade, cujo possui a maior densidade demográfica de acordo com o último senso, mas que filmes nacionais ficam no máximo duas semanas em exposição.
Valorizar o cinema brasileiro significa também garantir espaço para essas produções nas telas do país.
Torcida pelo cinema nacional
Mais do que a expectativa pelas estatuetas do Oscar, o simples fato de O Agente Secreto estar entre os indicados já representa uma vitória para a produção cultural brasileira. Vale ressaltar, que o brasileiro Adolpho Veloso também foi indicado na categoria “Melhor Fotografia” pelo filme Sonhos de Trem.
Em um país frequentemente marcado por crises políticas e frustrações esportivas recentes, ver o Brasil ganhar reconhecimento internacional através de sua arte é motivo de orgulho.
E, apesar de algumas escolhas narrativas que podem gerar debate, O Agente Secreto certamente se firma como um dos filmes brasileiros mais marcantes da década.

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