A Copa do Mundo de Futebol Masculino de 2026 começa hoje e será disputada em três países: México, Estados Unidos e Canadá. Mas, nas últimas semanas, antes mesmo de a bola rolar, algo tem chamado a atenção e não é o futebol. São as medidas de segurança, imigração e controle adotadas principalmente pelos Estados Unidos, que transformaram o que deveria ser uma celebração global em um evento marcado por barreiras, suspeitas e constrangimentos.
A Copa do Mundo sempre foi apresentada como o maior encontro entre povos, culturas e nacionalidades. Um torneio capaz de unir pessoas que falam idiomas diferentes; raças, religiões distintas; e vivem realidades completamente opostas. Porém, o cenário que antecede a edição de 2026 parece contradizer justamente esse espírito.
Diversos relatos envolvendo delegações, jornalistas, árbitros e torcedores levantam uma questão incômoda: todos são realmente bem-vindos nesta Copa? Bem, talvez não em todos os três países sedes.
Entre os casos mais comentados está o do árbitro somali Omar Artan. Reconhecido como o melhor árbitro do continente africano, ele foi submetido a um longo interrogatório (onze horas) ao chegar aos Estados Unidos, apesar de possuir a documentação necessária para ingressar no país. O episódio gerou indignação porque simboliza algo maior: a desconfiança automática direcionada a determinados passaportes e nacionalidades. O árbitro foi deportado, e a alegação dos Estados Unidos é a de que Omar tinha relação com supostas pessoas envolvidas a grupos terroristas da Somália.
A situação não parece isolada. Também surgiram relatos de dificuldades enfrentadas por integrantes de delegações de países africanos e do Oriente Médio. Em alguns casos, torcedores relataram problemas relacionados a vistos, autorizações de entrada e até cancelamentos de ingressos como torcedores do Irã, criando a sensação de que a participação na Copa depende não apenas da paixão pelo futebol, mas também da nacionalidade estampada no passaporte. Outro episódio que ganhou repercussão envolveu a jornalista brasileira Karine Alves. A repórter foi alvo de comentários racistas relacionados à sua aparência e ao seu cabelo black power ao chegar no aeroporto.
Em pleno século XXI, durante a cobertura do maior evento esportivo do planeta, profissionais da imprensa ainda precisam lidar com manifestações preconceituosas que deveriam ter sido superadas há décadas.
Também chama a atenção a situação de algumas seleções e delegações que, por questões migratórias e restrições impostas pelos Estados Unidos, enfrentam dificuldades que não deveriam existir em um evento que se propõe a ser mundial. Houve casos de equipes obrigadas a reorganizar sua logística, com atletas sem a garantia de permanecer em território norte-americano entre as partidas, precisando retornar ao México. Uma situação que evidencia como fatores políticos e burocráticos estão se sobrepondo ao esporte.
O racismo e a xenofobia não afetam apenas indivíduos. Eles contaminam o ambiente do torneio como um todo.
Quando jornalistas são atacados por sua aparência, quando árbitros são tratados como suspeitos antes mesmo de exercer sua função, quando torcedores enfrentam obstáculos extras por causa de sua origem ou quando delegações recebem tratamento desigual, a mensagem transmitida é clara: alguns são mais bem-vindos do que outros. E é justamente aí que surge a principal crítica à FIFA.
A entidade máxima do futebol mundial gosta de se apresentar como defensora da diversidade, da inclusão e do combate à discriminação. Seus discursos institucionais estão repletos de palavras como respeito, igualdade e união. No entanto, diante de situações que atingem diretamente participantes do torneio, a postura da FIFA tem parecido tímida e insuficiente.Essa postura ficou ainda mais evidente durante entrevista concedida na véspera da abertura da competição. Questionado por um jornalista da BBC sobre os relatos de problemas envolvendo imigração, discriminação e os impactos das políticas norte-americanas sobre participantes da Copa, o presidente da FIFA, Gianni Infantino, minimizou as preocupações e pediu para que as pessoas “relaxassem”. A resposta causou estranheza. Não apenas porque partiu do dirigente mais poderoso do futebol mundial, mas porque demonstra uma aparente desconexão com a realidade enfrentada por quem está sendo alvo dessas situações. É fácil pedir tranquilidade quando não se pertence aos grupos que estão sendo questionados, barrados, revistados ou tratados com desconfiança.
Infantino também afirmou que a FIFA não é dona do mundo e que não pode controlar as decisões soberanas dos países anfitriões. Em teoria, a afirmação é verdadeira. Porém, ela entra em choque com decisões tomadas pela própria entidade em outros momentos recentes.
Quando a Rússia iniciou a invasão da Ucrânia, a FIFA agiu rapidamente para excluir o país das competições internacionais e da Copa do Mundo. Naquele momento, a entidade demonstrou que, quando considera necessário, é capaz de tomar posições firmes e impor consequências esportivas. Agora, diante de denúncias de discriminação, xenofobia e obstáculos enfrentados por participantes da Copa, o discurso parece ser outro: o da neutralidade e da ausência de responsabilidade.Isso levanta uma pergunta inevitável: se a FIFA pode agir de forma contundente em determinadas situações políticas, por que agora adota um discurso de neutralidade diante de episódios que afetam diretamente atletas, árbitros, jornalistas e torcedores que participam da Copa do Mundo?
Os Estados Unidos têm todo o direito de proteger suas fronteiras e definir suas políticas migratórias. Nenhum país é obrigado a abrir mão de sua soberania. O problema surge quando essas políticas começam a interferir no espírito de um torneio que se propõe a ser universal.
Uma Copa do Mundo não deveria ser um evento em que alguns chegam pela porta da frente enquanto outros precisam provar repetidamente que merecem estar ali. Não deveria ser um torneio em que a nacionalidade, a cor da pele, a religião ou a origem geográfica se transformam em fatores de suspeita.
O futebol sempre foi celebrado por derrubar fronteiras. Em campo, um país pequeno pode derrotar uma potência. Um jogador desconhecido pode se tornar herói mundial. Uma torcida distante pode conquistar a admiração do planeta inteiro. Mas, fora das quatro linhas, a Copa de 2026 corre o risco de transmitir a mensagem oposta.
Antes mesmo do primeiro apito, o torneio já acumula episódios que levantam dúvidas sobre inclusão, igualdade e respeito à diversidade. E isso deveria preocupar não apenas a FIFA, mas todos aqueles que acreditam que o futebol é capaz de unir pessoas. Porque uma Copa do Mundo que seleciona quem pode participar plenamente de sua festa deixa de ser verdadeiramente mundial. E passa a ser, cada vez mais, uma Copa da Exclusão.
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